quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O camaleão dos olhos verdes



- Olá, estrangeiro…

Ele olhou em redor, desconfiado; mas na verdade, para além dele próprio… só a folhagem verde escura da copa das árvores, aqui e ali pejada de alguns rebentos jovens. Nada mais se movia.

- Pssttt… sim… tu mesmo…

Pronto. Então era mesmo para ele. Mas porquê “estrangeiro” ?

Rodou os olhos coloridos e observou-se numa rápida mirada. Não notou nada de especial.

Mas claro que ser camaleão já por si só… era algo de especial. Ainda comprovou se a camuflagem era a adequada… mas sim, as patas, a ponta da cauda, as mesmas tonalidades do tronco escuro da árvore. Tudo normal, portanto.

Então, porquê aquele “estrangeiro” ?

- É a primeira vez que aqui vens?

Olhou para ela com mais atenção.

Dissimulada entre duas folhas mais claras, a pele esverdeada reproduzia na perfeição as sombras do final da tarde, as manchas acinzentadas, até mesmo o castanho seco dos caules. Fitava-o imóvel, a curta distância.

- Sim… é a primeira vez…

- Ahhhh… eu sabia, eu sabia…

Avançou, recuou e avançou de novo, naquele jeito tão característico de caminhar dos camaleões, como se tacteasse cada centímetro de espaço à sua frente.

Ele ficou a vê-la aproximar-se.

Caminhara pelo bosque, sem destino ou direcção, empurrado pelo vento e pelos aromas dos frutos maduros. Nada o prendia a lugar algum.

Nada deixara para trás, nada esperava encontrar pela frente.

Há muito tempo atrás, aprendera que ser camaleão era ser em simultâneo um pouco de tudo, nada sendo de concreto. Não se reconhecia a ele próprio, nem à sua imagem, reflectida na água dos charcos.

A arte do disfarce era por vezes… frustrante; necessária à sobrevivência, é certo… mas cansativa.

Continuou à espera, pacientemente, vendo a anfitriã avançar cautelosamente para ele – afinal de contas, ele era o visitante, o “estrangeiro”, como ela lhe chamara.

Ainda haveria de descobri o porquê.

- Desculpa aparecer assim de repente… não percebi que esta árvore pudesse já estar ocupada… - lá foi dizendo, enquanto esperava que ela desse mais um passo vagaroso.

- Não faz mal – e ela moveu os olhos verdes, um em cada direcção, sempre alerta – é sempre bom receber visitas, de vez em quando…

Poucos passos e muitos segundos depois, encontraram-se finalmente.

Estudou-o pormenorizadamente, atenta aos mais pequenos pormenores. Ele, pouco habituado a tão meticuloso exame, sentiu-se como se observado à lupa.

- Porque me observas assim? Sou assim tão diferente?

Ela deixou-se rir e mudou instantaneamente a cor da cauda para um tom alaranjado vivo. Ele gostou do resultado.

-És diferente sim… muito diferente de todos os que já conheci… tens uns olhos brilhantes… e por isso te chamei estrangeiro, deduzi logo que não eras destas paragens…

- Não… na verdade não sou… - e foi a vez dele de mudar a cor da cauda para um arroxeado envergonhado, que não passou despercebido ao olhar dela.

- Queres fazer-me companhia, hoje à noite? Estou esperando a visita de uns amigos, todos simpáticos… tenho a certeza que vais adorar conhecê-los…

Ele ia responder que não sabia, que não tinha a certeza, talvez estivesse ocupado… mas ela antecipou-se às desculpas e com a cauda, enrolou-lhe o pescoço numa espécie de cumprimento mais afectuoso, que teve o condão de o fazer arroxear ainda mais a cauda.

- Muito bem… eu sabia que gostarias da ideia, fico feliz – e ela piscou-lhe o olho.

O recém-chegado deu-se por vencido, e convencido.

Desceram da árvore e caminharam lado a lado até ao pequeno lago. Um passeio vagaroso, contornando os cogumelos coloridos que polvilhavam todo o tapete verde.

Acercaram-se da margem do pequeno lago, esperando o passar dos insectos.

Junto das águas, tradicionalmente, os camaleões perdiam a camuflagem, voltando à sua cor original. Ela aclarou o tom da pele para um verde muito claro, um olho permanentemente alerta, em busca de alimento… o outro bem fixo no seu recente convidado. Ele, por sua vez, despiu aquele verde escuro das árvores, do mesmo tom dos olhos verdes e voltou à sua coloração natural, de um azul ofuscante que teimava em espreitar, mesmo quando ele se esforçava por passar despercebido.

Ela chegou-se um pouco mais para ele, as caudas ainda enroscadas.

- Adoro os teus olhos brilhantes, estrangeiro… e nunca tinha visto um camaleão azul, sabes?

Ele não sabia. Mas reconheceu um brilho especial naquele olhar com que ela o observava, e de repente sentiu-se como a mosca pousada no prato, à espera de ser servida.

Ia dizer algo, mas ela antecipou-se.

- Olha, estrangeiro… também gosto muito desse tom azul da tua pele….

Ele arroxeou de novo a ponta da cauda.

E deixou-se ir…

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