segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Os dois lobos



Um uivo.

Baixo, prolongado, anunciando o nascer do sol.

Do outro lado do vale, a alcateia preparava-se para mais um dia de sobrevivência, caçando, alimentando as ninhadas, vigiando, demarcando os limites do território.

Lippi, a pequena loba de pelo pardo, observava-os em silêncio, protegida pela camuflagem dos arbustos rasteiros.

Naquele dia, não acompanharia o resto do grupo nas tarefas habituais…

Levantou o focinho e sorveu ávida o ar frio da manhã.

Não… ainda nada de novo, simplesmente os odores habituais e conhecidos, o aroma adocicado dos pinheiros e acácias, o cheiro da terra ainda húmida pelo nevoeiro da manhã.

Esperaria, continuaria a esperar…

Ao longe, conseguiu distinguir a sua cria, bem no centro do grupo, aos saltos e nas brincadeiras características da juventude. A sua terceira cria.

As duas primeiras haviam já abandonado o grupo, criando as suas próprias famílias. Não as voltara a ver, desde o dia em que – primeiro uma, logo depois a outra – as vira partir acompanhadas de dois jovens lobos cinzentos, em direcção à montanha.

O ciclo de vida repetia-se assim, sem necessariamente outra lógica ou razão senão a da continuação da espécie, ano após ano, o inverno das neves a dar lugar à primavera das flores e ao transbordar dos rios, ao verão e à chegada dos ursos, ao Outono e ao ritual do acasalamento, da partida das crias mais velhas para fundar novas alcateias, algures na imensidão da floresta.

O eterno ciclo da vida.

A sorte não bafejara a pequena Lippi, de pelo pardo, ao longo da sua já longa vida.

Se era verdade que os lobos eram sobejamente conhecidos pela constância, pela permanência, pela vida familiar sólida e fiel… também era verdade que Lippi nunca usufruira de todas essas benesses da espécie.

Muitos anos atrás, também ela abandonara o conforto da sua própria família e acompanhara um jovem lobo branco, atravessara a floresta e criara a sua própria família. Desses tempos, guardava a marca de muitas dentadas no pelo e a falta de um pedaço da orelha, arrancada pelo companheiro furioso.

Os lobos têm boa memória, diz-se.

Talvez por isso mesmo lhe fosse tão difícil lembrar como sofrera tanto, ao longo de tanto tempo, sem nunca soltar um queixume, sem fugir, continuando pacificamente a sujeitar-se a um vegetar silencioso, gerando crias, acompanhando o lobo branco por montes e vales.

Um dia… algo aconteceu.

Um lobo castanho saltou-lhe ao caminho, junto do ribeiro onde habitualmente bebia.

Nunca o vira por aquelas paragens, habitualmente desertas.

Rosnou de sobreaviso, mas o intruso não se afastou. Pelo contrário, abanou simplesmente a cauda, sentou-se bem no meio da vereda a barrar-lhe a passagem e soltou um ligeiro uivo, quase como um cumprimento desajeitado.

Ela olhou-o nos olhos e reviu-se a si própria, num tempo distante em que o olhar tinha um outro brilho, os passos eram mais seguros, a confiança maior.

Voltou a rosnar, para afastar o intruso.

Ele respondeu-lhe com novo uivo.

Se fosse humano, dir-se-ia estar a sorrir.

Rufus, o lobo castanho, percorria ele próprio caminhos desconhecidos. Abandonara a sua alcateia, vagueara pelos montes em busca de algo que nem sabia explicar. Sentira um chamamento e dirigira-se aquele local, sem saber o que iria encontrar; sabia simplesmente que precisava de se dirigir ali.

O tempo passou.

Uma estação, duas estações, um ano.

Lippi e Rufus tornaram-se próximos, estranhamente próximos.

Sem o fazer de propósito, davam os mesmos passos, adivinhavam os pequenos gestos um do outro, sentavam-se em simultâneo, tropeçavam nas mesmas pedras. Ele lambia-lhe o pelo pardo, amenizando-lhe as recordações das feridas, ela enroscava o focinho no pescoço dele, fazendo-o uivar de prazer.

Um dia, bem pela manhã, ele caçou um pequeno coelho e foi depositá-lo junto dela, acordando-a com um suave empurrão. Ela uivou, ronronando de prazer, nada habituada a gestos ternurentos.

Eram felizes.

Perscrutou novamente em redor.

Nada, ainda nada.

Só e ainda os habituais odores.

Esperaria…

Certo dia, acordou em pânico, sobressaltada pelos uivos de dor e pelo ruído de uma luta próxima. Correu.

Junto do ribeiro, o lobo branco – bem mais habituado a lutas de posse pelo acasalamento - massacrava o lobo castanho, arrancando-lhe pedaços de carne. Este ripostava como podia, contra-atacando… mas sem grandes resultados. O lobo branco, bastante mais velho e experiente, contornava-lhe as manobras, atacava de frente, pelos lados, por trás, movendo-se velozmente.

Num impulso, Lippi atirou-se para a frente, dando o corpo.

O lobo branco, enfurecido pela presença da companheira, saltou sobre ela, dilacerando-lhe num ápice o pescoço com as garras afiadas.

O sangue jorrou.

Lippi insistiu.

E novamente recebeu mais dor e sangue.

Até uma última patada a deixar prostrada no chão, sem sentidos.

Quando acordou, banhada em sangue, estava sozinha.

O lobo branco desaparecera, do lobo castanho restavam tufos de pelo e pedaços ensanguentados de carne, arrancada em furiosas dentadas.

Uivou.

Com toda a força que o corpo magoado lhe permitia.

Uivou de dor, de solidão, de tristeza infinita.

Uivou de raiva pela injustiça da vida, por se sentir fraca e desamparada, por querer… e não ter.

Os seus lamentos repercutiram-se nas encostas da montanha, prolongados em ecos que mais ninguém ouviu. Só ela.

As feridas sararam, a dor permaneceu.

Dia após dia, dirigia-se ao mesmo local, sentava-se e ali permanecia em silêncio… à espera. À espera de um sinal, de um reencontro, de um som, de um odor.

Nada, desesperantemente nada.

Sentiu-se morrer por dentro.

E nada podia fazer para o evitar.

Sem querer, uivou baixinho, como se falasse para si própria.

E foi então que… lhe pareceu ouvir algo.

Ergueu-se de um salto, rosnando ameaçadora em direcção à vegetação cerrada, donde lhe parecera ter saído o som.

Fosse o que fosse – mesmo um urso – sentia-se demasiado fora de si. Apetecia-lhe rasgar com os dentes o mundo inteiro, carpir todas as mágoas, e pobre do animal que agora lhe aparecesse pela frente, fosse ele qual fosse.

Os arbustos agitaram-se ao de leve, o ruído característico das folhas secas pisadas.

Uma figura frágil, arrastando uma das patas, assomou na vereda.

Rufus.

Um uivo.

Lippi acercou-se pé ante pé, sem acreditar completamente no que via.

Ele escorregou e deixou-se cair bem aos pés dela.

As forças não chegavam para mais.

E novamente, Lippi uivou.

Um uivo diferente, como nunca soltara em toda a sua vida.

Um grito rasgado de dentro, de convicção, de querer, de vontade indomável.

Fora fraca um dia, não o voltaria a ser novamente.

Sentou-se sobre as patas traseiras, lambendo-lhe o pelo sujo e pejado de espinhos.

Os olhos brilhavam-lhe, um brilho quase esquecido.

Esfregou o focinho no pescoço dele, à espera de um rosnar de prazer. Ele, demasiado ferido, esboçou um leve uivar, que mais se assemelhava a um latido de dor.

E trocaram um olhar.

Um longo e cheio de sentidos olhar.

Não era preciso dizer nada, fazer nada.

Ambos sabiam.

Ambos queriam.

5 comentários:

  1. Ah, Joana... sim... creio que sim.

    Beijos, tudo de bom para ti.

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  2. Há vidas humanas que não têm tantos gestos de ternura como esta história com lobos. Talvez porque os humanos não saibam uivar baixinho.
    Abraço.

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  3. António R....
    Verdade, pura verdade. Talvez que a ternura ( talvez? Sim ) seja a chave para muitas coisas... e talvez que nós humanos... não saibamos uivar baixinho, simplesmente gritar..

    Um abraço.

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  4. Rolando,

    Como "Lippi" eu esperei um longo tempo para dar: "Um grito rasgado de dentro, de convicção, de querer, de vontade indomável." Que prazer, voltar a ler os teus textos! Sentir a ternura e a beleza em cada palavra que escapa do teu coração. Ah, meu amigo, como fizeste falta!

    Lindo, terno e amoroso, esse teu conto! Pena que sejamos só humanos nessa selva que chamamos de solidão. Temos tanto que aprender com Lobos!

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