segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A criação do mundo


( Pintura de Edson Campos )

Houve um tempo em que a luz da aurora amanhecia sempre azul.

Houve um lugar em que o arco-íris nascia nas cascatas e descia o rio, por entre nenúfares e pirilampos.

Mas tudo isso foi há muito, muito tempo atrás… e num lugar já de todos esquecido.

Chamavam-lhe o paraíso.

O paraíso era povoado por muitas espécies de seres, vegetais e animais. Os céus fervilhavam com o grito dos pássaros, a terra coloria-se de répteis e mamíferos, as águas dos rios transbordavam de peixes e pedras falantes.

Sim.. pedras falantes.

Naquele tempo e lugar distantes… todos os seres vivos tinham a capacidade de falar e de ser ouvidos, numa linguagem universal comum a todos.

Árvores de fruto, arbustos, flores e trevos de quatro folhas, planícies imensas cobertas de lençóis coloridos, numa eterna primavera.

O jovem pavão abriu o seu leque majestoso, exibindo as penas multicores para a companheira.

- Vens comigo?

Ela estremeceu, as penas brancas encolhidas num frémito de temor mal disfarçado.

- Tenho medo… tenho muito medo…

O jovem pavão esticou-se ainda mais, parecendo maior.

- Medo? Medo de quê? Nós podemos voar… para isso temos asas… nós podemos voar…

- Mas… - e a voz da companheira tremia – tu ouviste o Criador… e Ele foi bem explícito… não podemos voar…

- Claro que podemos… tu não entendeste bem… Ele disse que não devemos voar, porque é perigoso, porque nos podemos magoar, etc, etc… só isso…

- Não, não… não foi isso que Ele disse. Eu ouvi bem… se tentarmos voar, cairá um castigo enorme sobre nós, seremos transformados numa coisa qualquer que Ele disse o nome mas que agora nem recordo… e que deixaríamos de falar…. Tu consegues imaginar isso, deixar de falar? Seria horrível…

- Pompilia, minha querida… não tenhas medo… isso é tudo uma invenção do Criador…. cheio de boas intenções, claro… mas não passa de uma invenção…

- Não, Pompeu… Ele falou muito a sério… eu senti aquela voz muito séria mesmo…

Pompeu, o pavão, já estava decidido… e nem a companheira o faria mudar de opinião. Afinal de contas… porquê ter asas sem poder voar? Quantas vezes não erguera já ele os olhos ao céu, morrendo de inveja de todos os pássaros esvoaçantes? Quantas vezes não abrira já as asas… sentindo que com um pouco, só um pouco de esforço…. Poderia voar? E só porque o Criador dissera “ Não “… não poderia voar? Onde estava a justiça de semelhante decisão? Não teria ele os mesmos direitos de todas as outras aves, não era ele próprio uma ave? Pois então… se era… deveria poder voar.

Pompilia, a companheira, observava-o de perto. Temia as consequências daquele gesto, recordava perfeitamente as palavras duras do Criador… quando lhes havia dito “ vós sois as criaturas mais belas que criei… as únicas a quem dei todas as cores do arco-íris. Podeis fazer o que quiserdes, ir onde vos aprouver, usar e deliciar-vos com tudo o que encontrares. Este lugar é vosso, moldei-o à vossa imagem… e para vos fazer felizes. A única excepção será… o não poderdes voar. Reservei os céus para outras criaturas, a vós concedo-vos tudo o que está abaixo deles “

Pompeu esticou-se um pouco mais, até ao limite.

Abriu as asas – uma e outra vez – ganhando impulso, velocidade, potência.

Sentiu que faltava pouco, faltava muito pouco. Só mais alguns movimentos…

- Pompeu, por favor… não o faças… não… - implorou a companheira.

Mas Pompeu, majestoso de cor e audácia, já não a ouvia. A excitação apoderara-se por completo do seu corpo, inebriava-lhe os sentidos. Voar. Iria voar.

Sentiu que chegara o momento.

Um último batimento de asas e um pequeno impulso final com as patas…

Finalmente…

Um raio ofuscante de luz – talvez sol – cegou-o no mesmo instante em que as patas largaram o solo. Logo de seguida, uma rajada súbita prostrou-o por terra, empurrando-o violentamente contra o tronco da árvore mais próxima.

Pompilia tentou gritar para o companheiro… mas a garganta não lhe obedeceu; um coro de ruídos estranhos encheu os ares, palavras entrecortadas de soluços e lágrimas.

E foi então… que a transformação, lenta e inexorável… se iniciou.

As penas dos dois pavões perderam rapidamente a cor e caíram por terra, o corpo alongou-se, as patas engrossando e ganhando formas estranhas, as asas mudando de aspecto, membros fortes, a cabeça a alargar-se…

“ Deixareis de ser as aves mais belas do universo e transformar-vos-ei em humanos, seres desprovidos de penas e de canto, far-vos-ei caminhar descalços pelos campos para sentirdes as pedras sob os pés… e deixareis de falar a linguagem de todos os seres vivos, sereis surdos aos seus apelos e à sua magia, aprendereis palavras rudes e não… não voltareis a poder tocar o arco-íris “

Demasiado tarde para voltar atrás.

Pompilia ainda tentou chamar o companheiro, mas já nem conseguiu reconhecer o som da sua própria voz.

- Pompeu…

A floresta emudeceu de repente.

As duas figuras humanas continuaram deitadas no chão, repleto de trevos de quatro folhas, imersas num sono profundo.

Quando a noite caísse e o frio as despertasse, um novo mundo e um novo tempo iria começar. E a memória desse lugar longínquo a que chamavam paraíso… perder-se-ia para sempre… restando apenas lampejos soltos durante as noites frias de Inverno…a que chamariam talvez… sonhos.


domingo, 30 de janeiro de 2011

Eucaliptos na janela



Há gestos assim; simples e pequenos.

Claro que seria mais óbvio, natural até… fazer uma festa, convidar uns amigos, abrir um espumante.

As paredes, imaculadamente brancas, esperavam os primeiros quadros.

As lâmpadas acenderam-se pela primeira vez e, mesmo sendo dia, emprestaram um tom quente ao conforto dos sofás, das alcatifas, dos tapetes, da lareira.

Tudo estava pronto.

Sem pressa alguma, deixou o olhar espraiar – a sala, alaranjada – a porta entreaberta da cozinha – o corredor de acesso aos dois quartos, a varanda de pedra voltada para o rio.

Mudar de casa.

Mudar de casa é quase como mudar de vida. Por vezes… muda-se de casa porque a vida mudou. Outras vezes… muda-se de casa porque se quer que a vida mude.

A mudança é necessária – pensou, enquanto pousava o pequeno saco de plástico sobre a mesa.

Claro que nenhuma das amigas percebeu quando ela anunciou “ Vou trocar de casa… e isso é só o primeiro passo. Depois… vou trocar de vida.”

Afinal de contas, para quê? Para quê trocar o que quer que fosse, se ela já tinha tudo?

- Você é louca… largar aquele belo apartamento no centro? Eu era capaz de matar para conseguir um lugar ali… e você vai largar? Assim sem motivo nenhum?

E ela disse que sim.

Motivos?

Isso era uma longa história…

Retirou do saco de plástico o pequeno vaso. As folhas verdes agitaram-se, trémulas, pressentindo um novo destino.

- Ora vejamos… a vossa nova casa…

E foi-se aproximando de uma das janelas da sala.

Três dias antes, ao sair do táxi, já bem próxima de casa, presenciara uma cena assaz curiosa. Dois transeuntes distraídos – um ele de meia idade e lendo distraidamente o jornal e uma ela, bem jovem e segurando desajeitada uma vaso com uma planta – chocavam frontalmente, bem junto do semáforo.

Na mini confusão que se seguiu, e enquanto esperava o troco do taxista, lá foi ouvindo o rescaldo do acidente.

- Perdão, menina… não devia andar com árvores na rua…

- Árvores? Desculpe, o senhor é que vinha a ler essa coisa, nem me viu…

- Claro que vi… e a menina também me teria visto, se esse arbusto não lhe tapasse a visão…

- Que indelicadeza... falta de educação… olhe, pela minha parte, e apesar de não ter tido culpa nenhuma, peço desculpa…

- Não faz mais que a sua obrigação, menina… devemos ter sempre atenção com os mais velhos, sabia?

- … ahhhh… claro, já cá faltava essa… e olhe, a propósito… isto não é nenhuma árvore, nem nenhum arbusto…isto são podas de eucalipto…

- Por mim até podiam ser sequóias ou limoeiros, tanto me dá… e já perdi muito tempo…

Quando finalmente recebeu o troco, a jovem ainda permanecia de joelhos, tentando apanhar alguma da terra que se espalhara sobre o passeio.

Sem saber bem porquê, foi ter com ela.

- E então… a plantinha? Vai sobreviver ao trambolhão?

A jovem lançou-lhe um olhar desconfiado, mas ao ver-lhe o sorriso nos lábios lá acalmou a postura.

- Espero que sim… é resistente… os eucaliptos são resistentes…

Ela dobrou-se sobre os joelhos e apanhou os últimos pedaços de terra, enquanto a jovem tentava endireitar uma haste partida.

- Nunca tinha visto… um eucalipto assim tão pequeno… nem pensei que se vendessem aqui…

A jovem acenou-lhe com a cabeça, toda eloquente.

- Claro que se vendem. O senhor Fernando, ali da loja da esquina… foi lá que arranjei este… gosta?

Ela fez que sim, que gostava.

- Gosto sim… apesar de não ser muito normal ver um eucalipto num vaso de flores…

- Vou colocá-lo na minha janela. Dá-me boa disposição, ao acordar…

- Sério? Boa disposição? Nunca tinha ouvido falar de semelhante coisa…

- É verdade… os eucaliptos na janela significam força, energia, mudança… a sério que não sabia?

- Pois… não, não sabia….

Despediram-se, entre sorrisos e restos de terra por apanhar no passeio de cimento.

- Pronto… bemvinda a casa, plantinha…

E lá pousou a pequena poda de eucalipto junto da janela ensolarada. O reflexo do sol nas folhas verde seco projectou-se sobre o branco das paredes, compondo um jogo abstracto de sombras.

Por vezes, tinha gestos assim; simples e sem motivo.

Sabe-se lá porquê, deu consigo a entrar na loja do senhor Fernando e a dizer que queria uma plantinha para a sala. E quando o bom do florista lhe apontou uns cólios magníficos, ela torceu o nariz e apontou para a prateleira do fundo:

- Não… quero aquele eucalipto, ali ao fundo… o pequenino…

E pronto, estava decidido.

A parede branca borbulhava de movimento.

- Sim… é uma ideia… - deu consigo a murmurar, enquanto se deliciava com o dançar das sombras na parede – uma pintura nessa parede… sim… porque não?

Olhou para o pequeno eucalipto.

. Muito bem, muito bem… mal chegas a casa e já tens sugestões de decoração… e talvez desta vez até te siga a sugestão, sim… aquela parede branca até ganharia muito com uma pintura…

Mudança?

Haverá algo mais desafiador que a imensidão de uma parede branca?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um instante no tempo


“ Um dia, quando for grande… vou escrever um livro…”

Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro… três acções que sempre ouvira dizer, definiam a realização do ser humano, concretizavam a sua faceta criadora.

Criar… criar algo; criar vida, criar o abstracto, criar pensamentos, deixar pegadas na areia, deixar memórias. Seria esse o objectivo último de viver?

Porquê?

Sempre o “porquê”… sempre uma questão para tudo. Teria a vida que ser sempre uma eterna sucessão de questões mal respondidas? Onde estava a lógica de conseguir ser suficientemente inteligente para formular perguntas… e não ser suficientemente inteligente para descobrir as respostas? Que paradoxo.

Olhou para o caderno de capa dura, pousado sobre a mesa. Vazio, de páginas em branco, a caneta de tinta ao lado.

Porquê escrever?

Escrever o quê, escrever para quem?

Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro.

Já realizara as duas primeiras tarefas… e com aparente sucesso. Na verdade não se limitara a ter um filho, mas sim três. Tal como plantara muitas árvores, apesar de uma delas ser uma memória especial, talvez por ter sido a primeira; uma nespereira, ao fundo do quintal, plantada pouco depois do nascimento da primeira filha.

Já era grande, crescido, adulto. Apesar de nunca se ter apercebido da transição, de não ter existido nenhum “clic” a separar a criança do jovem ou do adulto. Talvez que para os outros o processo fosse mais visível… mas ele ainda se sentia a quase criança, acreditando em pequenas magias, amores eternos e cavaleiros andantes defensores de causas e ideais. Os cabelos brancos que entretanto surgiam todos os dias não apagavam esta ideia, tão pouco um certo cansaço nos passos ou a perda do vigor dos braços. Tudo isso não passava de pormenores, a verdadeira criança residia ainda no olhar e esse… esse ainda conservava o brilho de outrora, talvez até mais brilhante.

Sorriu, uma memória de tempos idos a aflorar-lhe à consciência.

A mãe presenteara-o com uma surpresa invulgar, uns dias antes.

Fora visitá-la, saber-lhe da saúde, matar saudades. Os oitenta anos exigiam que se recordasse que não o poderia fazer para sempre, e naquele dia combinaram almoçar juntos.

E foi então que no final da refeição, ela se levantou da mesa com um enigmático “ Vou ali buscar uma coisa que guardei para te dar…”

Quando regressou, trazia nas mãos uma moldura de madeira e ele reconheceu de imediato a caligrafia infantil de uma folha de papel, resguardada do tempo por um vidro riscado.

- Guardei-o durante todos estes anos… ainda te lembras dele?

Lembrava-se, lembrava-se perfeitamente.

Teria talvez uns onze, doze anos, compusera um pequeno poema e oferecera-o à mãe, por ocasião do aniversário dela. Meia dúzia de frases e de rimas forçadas, pejadas de redundâncias.

- Lembro-me sim… não sabia que o tinha guardado…

- Claro que guardei, é lindo… e foi o primeiro poema que me ofereceste… também tenho outros, daqueles que chegaste a publicar no jornal… mas este é especial… foi o primeiro… e foi-me oferecido a mim…

Memórias.

O presente também é feito de memórias.

Contemplou de novo o caderno ainda por abrir, sentindo que este também o observava.

“ É natural “ – pensou – isto é como uma relação de amor…

Pegou na caneta e tranquilamente abriu o caderno na primeira página. O branco vazio encheu-se de imagens ainda por escrever e ele sentiu, por um ínfimo instante, o prazer supremo da criação.

E começou.

“Era uma vez…”

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Tomás



- Tomás… esta prenda é especial, muito especial...

O Tomás, esguio e de cabelo eriçado, lançou-lhe um ar intrigado. Uma prenda? Bem… prendas eram sempre bemvindas, mesmo que o dia não fosse de aniversário, Natal ou de qualquer outra celebração.

- Uma prenda? Para mim? Mas eu não faço anos…

Leo, o vendedor da loja de vídeo-jogos, piscou-lhe o olho.

- Eu sei que não fazes anos hoje… fazes a 17 de Fevereiro, julgas que eu não sei? Mas mesmo assim, esta prenda é para ti…

O Tomás, meio indeciso, lá olhou para a mãe, num meio pedido de autorização. Como esta sorrisse, lá esticou as mãos em direcção ao embrulho, comprido e estreito, que Leo lhe oferecia.

- Mãe… posso?

A mãe fez-lhe que sim com a cabeça. Leo era um velho amigo dos tempos de escola, companheiro de aventuras e cúmplice de travessuras.

- Claro que podes… e o que é que se diz também?

- Obrigado, Leo… - lá murmurou o Tomás, rodando o embrulho entre os dedos – o que é ? Parece tão leve…

- É leve, sim… é um objecto mágico… e lembrei-me que agora que já tens 11 anos e que estás sempre a falar nas magias do Harry Potter… haverias de gostar de fazer tu mesmo… magia…

O Tomás lá foi desembrulhando o papel colorido e o laçarote vermelho. Uma caixa, uma vulgaríssima caixa de cartão branca. Abriu-a. O que era aquilo?

A mãe também se esticou toda para poder espreitar.

Uma cana?

Um pedaço de bambu?

- O que é, Leo? É uma daquelas flautas de madeira? Faz som?

Leo sorria, um olhar de malícia a enrugar-lhe o rosto moreno. Luísa, a mãe do Tomás, acompanhava a expressão de surpresa do filho, também ela à espera de mais pistas para perceber a função daquele pequeno pedaço de bambu – um palmo de tamanho, não mais, meio seco, meio esverdeado.

- Também ainda não percebi para que serve… mas aqui o Leo deve desvendar o mistério – e lançou-lhe um olhar divertido – vá, Leo…conta…

Leo tentou colocar o seu ar mais circunspecto.

- Bem… isto é… uma varinha mágica… verdadeira. Uma varinha mágica de verdade.

Luísa ria, Tomás continuava à espera do desenrolar dos acontecimentos. Leo sempre tivera um jeito especial para lidar com crianças, talvez pelo modo de falar… ou por aquela entoação de contador de histórias com que conseguia prender a atenção de qualquer um. Com frequência juntava um grupo de miúdos na loja e ficava a jogar com eles as últimas novidades saídas no mercado, ou a inventar histórias dos tempos em que – por não existirem ainda jogos de computador – se brincava de outro modo.

Um dia, um miúdo dissera-lhe algo que o deixara a pensar:

- Leo… tens mesmo a certeza que quando tinhas a minha idade não havia jogos de computador? Então… tu não brincavas? Estavas sempre a estudar?

Fora complicado – recordava-se – tentar explicar aquela criança que já existia vida no planeta antes de surgirem os computadores… e que sim, existiam jogos e brincadeiras que obrigavam a correr e a saltar, a mover peças em tabuleiros ou até a fazer corridas de carrinhos de brinquedos ou fantásticas batalhas com soldadinhos, quer fossem de plástico ou de chumbo.

E agora ali estava o Tomás olhando fixamente para ele, à espera de uma explicação mais convincente para a estranha prenda.

Olhou para a Luísa e esta abriu mais os olhos, naquele trejeito característico como que a dizer “ E então? Dizes ou não dizes? “

- Então é assim… - lá começou ele, bem devagar, arrastando propositadamente as palavras – esta varinha… é mesmo mágica, como já te disse… e só pode ter um dono, só pode ser usada por uma única pessoa… crês que poderás ser tu essa pessoa? Sentes-te capaz ?

Claro que o Tomás se sentia capaz. Não era preciso frequentar um colégio de bruxos, como o Harry Potter, para perceber que cada varinha mágica só podia ter um dono. Apesar do aspecto daquele pedaço de bambu ser… bem diferente das varinhas mágicas dos filmes.

- Muito bem… - e Leo apontava para a varinha – a primeira coisa que terás que perceber é que essa varinha ainda não te conhece, não sabe quem tu és… e portanto, terás que lhe dizer isso, para ela te reconhecer no futuro. Compreendes?

O Tomás abanou a cabeça, os olhos bem abertos a seguir o movimento das pontas dos dedos do contador de histórias.

- Sim… percebo…. E como vou fazer isso?

- Ora… é muito simples, Tomás… só necessitas de gravar o teu nome na tua varinha… pegas num canivete com muito cuidado, para não te magoares… e talhas na madeira as letras do teu nome… e assim a varinha já saberá para sempre quem tu és…

Luísa abanava a cabeça, entre o surpresa e o divertida. Onde ia Leo arranjar sempre aqueles estratagemas?

- … e depois, Tomás… agora é que vem a parte importante, vê se prestas bastante atenção… estás com atenção?

Tomás só piscou os olhos, quase hipnotizado.

- Certo, muito bem… então Tomás, o que tu terás que fazer é estar atento… durante todo o dia… estar atento… e se te acontecer algo de invulgar, de extraordinário… deverás gravar uma marca na tua varinha. Uma marca por cada momento especial que ocorra durante o teu dia… estás a compreender-me?

Tomás disse que sim.

- E se não acontecer nada de especial?

- Então só significa que não estiveste com atenção… porque estão sempre a acontecer coisas especiais à nossa volta… e quase nunca reparamos nelas…. Só podes fazer marcas na tua varinha quando te acontecer algo. E a tua varinha ficará cada vez mais poderosa… à medida que acrescentares mais marcas…. Cada vez mais marcas…. Entendes?

Foi Luísa que abanou a cabeça, como se a mensagem lhe fosse dirigida. Apetecia-lhe interpelar o amigo, para no mínimo conseguir perceber onde ia ele buscar inspiração para tudo aquilo… mas a presença do filho aconselhava a deixar o assunto para melhor altura.

- Ouviste o Leo, Tomás? Percebeste o que tens que fazer?

- Percebi… mas deve ser difícil…

- Difícil? Claro que não é difícil… se o Leo disse que é assim que resulta, ele lá sabe… só tens que ter atenção, não é Leo?

Foi a vez de Leo concordar.

- Isso mesmo… estar atento… estar atento à magia que acontecer à tua volta…

E depois desta curiosa conversa se passou uma semana…. Duas semanas.

- Olá, Leo…

Tomás vinha sozinho, a mochila da escola às costas.

- Tomás… há muitos dias que não aparecias… então hoje vens sozinho? A mãe não veio?

- Veio… mas está ali numa loja a comprar roupa e deixou-me vir aqui… e espero aqui por ela…

- Ah, muito bem, muito bem… e então? Está tudo bem contigo?

Tomás exibiu um sorriso mais alegre que o habitual.

- Está tudo bem… e eu vim cá para lhe fazer uma pergunta… sobre a varinha.

- Ah… a varinha. Certo, certo… já percebeste como funciona? Já fizeste marcas?

O olhar do rapazinho iluminou-se ainda mais.

- Sim… eu acho que sim… e é mesmo por isso que eu não sei…. Tenho uma duvida, Leo…

- Então, Tomás? Fala à vontade, sem problemas, aconteceu alguma coisa?

- Pois… sim e não… será que eu posso fazer de uma única vez duas marcas na varinha?

- Duas marcas? Essa agora… não sei se te estou a acompanhar…

- Pois… fazer duas marcas seguidas… é que aconteceram duas coisas mágicas, e logo seguidas uma à outra…

O vendedor arregalou os olhos. Porque é que as crianças conseguem sempre surpreender os adultos, mesmo quando estes pensam controlar todas as variáveis?

- Duas marcas… bem…. É uma situação invulgar, deveras invulgar… não é melhor seres um pouco mais explícito? E se me contasses pelo menos um pouco do que aconteceu? Talvez assim eu te possa responder melhor…

Tomás queria contar, notava-se pelo olhar. Ansiava por partilhar qualquer coisa de extraordinário.

- A Joana deu-me um beijo – atacou sem rodeios – no intervalo das aulas. Chamou-me e disse-me que me queria contar um segredo. E eu fui… e então ela beijou-me. Duas vezes. Eu gostei mais do segundo.

Leo abriu e fechou a boca, sem saber muito bem como manter a expressão séria. Acabou por sorrir, bem disposto.

- Isso sim, é magia. Magia pura, Tomás… Fico muito feliz que tenhas percebido isso… mas só não entendo porque me perguntaste pelas duas marcas…

- Oh Leo… é que… depois dela me dar os dois beijos, nem imagina o que ela fez…

Pois está claro que Leo não imaginava. A expressão incrédula não necessitava de legendas.

- Pois não, não imagino mesmo… aliás, nem sei quem é essa menina Joana de que falas…

- A Joana, depois dos beijos… abriu a mochila e … adivinhe… ela também tem uma varinha mágica, parecida com a minha, mas parece-me que é cor-de-rosa… e então ela pegou no corta unhas e fez lá uma marca também… e ela já tem imensas marcas na varinha … não é estranho? Por isso é que vim perguntar… será que isto conta também para mim? Posso fazer mais uma marca na minha varinha, Leo? Posso?

Leo permaneceu imóvel, aturdido. Acabara de perceber quem era a Joana de que o Tomás falava; a filha do Alberto, um ex colega de tropa.

Sim, conhecia perfeitamente a Joana… desde que nascera. E gostava muito dela também.

- Se podes fazer mais uma marca na tua varinha, Tomás? Pois bem… sabes? Eu acredito que te aconteceu algo de tão especial, tão especial mesmo… que sim… será muito boa ideia fazeres mais uma marca na tua varinha mágica…



domingo, 23 de janeiro de 2011

O escurecer dos dias



- “ A beleza não está nas coisas… está nos olhos de quem a vê”

Ela encostou-se um pouco mais, pendendo a cabeça sobre o ombro dele.

- Acreditas mesmo nisso? Tu?

- Claro que acredito. Estás sempre a elogiar-me, a dizer que sou bonito… ora como eu sei que isso não é verdade… só podem ser os teus lindos olhos os responsáveis por essa… ilusão.

- Não, João, claro que não. Tu és mesmo bonito.

- Sim Maria… e tu és uma princesa de um conto de fadas… que felizmente se encantou por este plebeu…

Ela riu, divertida.

O seu João era assim; modesto e sedutor, galanteador por natureza.

- Gosto muito quando colocas esses brincos de argolas – e ele passava-lhe as mãos pelo rosto esguio, numa carícia ao de leve – ficas com aquele ar de cigana…

- Sei… dizes-me sempre isso. Ainda te lembras quando os comprámos? Naquela feira de rua?

- Claro que me lembro. Aliás, lembro-me que foi nesse dia que dei um valente tropeção e fiquei estendido no meio da rua.

- É verdade… o susto que eu apanhei… - e a voz tremeu-lhe, as memórias a aflorar à superfície.

- Ora, ora, não foi nada… acontece a toda a gente – lá foi ele dizendo, em tom alegre.

Ela ia responder-lhe que não era bem assim, mas preferiu mudar de assunto.

- Sabes… - começou ela, hesitante – tenho estado a pensar… acerca da nossa viagem…

- Da viagem? Muito bem, muito bem… podes contar… alguma nova ideia que te surgiu?

- Ideia? Não, não é bem uma nova ideia, tenho estado a pensar em alguns pormenores, só isso…

- Óptimo, óptimo… sempre ouvi dizer que duas cabeças pensam melhor do que uma… e a que conclusões chegaste, pode-se saber?

- Pois… a festa… pensei… porque não fazê-la depois? Depois de regressarmos? Estaríamos todos mais descontraídos, tu mesmo te sentirias melhor, os nossos amigos gostariam de…

- Oh, Maria – e ele colocou-lhe um dedo nos lábios, num pedido de silêncio – claro que não, essa agora… a ideia inicial da festa não tinha nada a ver com esta viagem, a viagem surgiu depois… trata-se do nosso aniversário de casamento… são dez anos… claro que vamos fazer a festa…

Ela procurou novos argumentos para contornar a situação.

- Eu sei, amor, eu sei… mas repara… o nosso aniversário é no dia 15… e a viagem, o avião parte no dia 17… é tudo tão em cima da hora… podíamos adiar…

Ele interrompeu-a de novo.

- Maria, minha pequenina… estás preocupada…

Ela calou-se.

Claro que estava preocupada; e muito.

Afinal de contas, aquela não era uma viagem qualquer.

Partida para Cuba… dia 17. Primeira consulta… dia 18… e a operação… dia 19. O regresso… talvez uma semana depois, dependendo da convalescença, dissera o médico.

João continuava a olhar para ela, talvez à espera de uma resposta, as mãos entrelaçadas nas dela.

Ela sabia – o médico também já a avisara – que mesmo aquela tão curta distância… ele mal a conseguia ver, provavelmente talvez só um borrão colorido de contornos desfocados e escuros.

Sim… ela sabia-o… tal como ele.

A doença, certamente genética, manifestara-se dois anos antes, e evoluíra assustadoramente. Ao inicio, não passara de um leve ardor, alguns contornos esbatidos, facilmente confundível com cansaço.

Pouco depois, a mistura das cores, o aparecimento de borrões, o escurecimento dos cantos.

Os médicos foram peremptórios; Doença degenerativa da retina, incurável e aguda.

Foi um desabar do mundo.

Deixou de conduzir o automóvel, de trabalhar no computador, de ver televisão, de ir ao cinema. Só não deixou de sorrir e de manifestar sempre uma férrea vontade de ultrapassar a dificuldade.

- Maria… meu amor… então eu é que tenho o problema e tu é que choras? – questionava amiúde, sempre que lhe pressentia a voz trémula. – Claro que ainda vamos descobrir um jeito… só ainda não encontrámos o médico certo, vais ver…

Quando o nome do Dr. Morellos surgiu em cima da mesa, nem hesitaram. Já sabiam por muitas conversas que muitas pessoas se dirigiam a Cuba, pelos mais variados motivos e doenças, principalmente do foro oftalmológico. E o Dr. Morellos era o tal… que experimentara uma operação revolucionária num doente com a mesma doença que ele, João… e com aparente sucesso. Portanto… não havia tempo a perder, antes que a mesma se agravasse mais e mais.

Maria não partilhava o optimismo do marido. Sabia algo… que não partilhava com ele. A esperança e a convicção eram necessárias, fundamentais até, para qualquer sucesso. Uma espécie de fé, como ela costumava dizer.

- Muito bem, amor… faremos a festa de aniversário… e depois, quando voltarmos… faremos outra festa, ainda maior. E dessa vez, poderás ver todos os convidados, todos os nossos amigos, porque lá irão estar todos, ansiosos por te ver…

Ele sorriu-lhe, deliciado.

- Será um acontecimento… especial, sem dúvida. Espero não os desapontar, se eles vão lá para me ver já curado e dão de caras com este meu aspecto de hoje…. Sentir-se-ão defraudados, não achas?

E riu do seu próprio humor, afastando todos os maus presságios.

Continuaram encostados um ao outro, no banco de madeira à beira do lago.

Entardecia.

Maria sentiu de novo aquele nó a subir, do coração à garganta, impedindo-a de falar.

Não… nunca lhe diria.

Partiriam para Cuba na data prevista, fariam tudo conforme o estabelecido, as consultas, a operação, talvez até umas mini-férias depois disso.

Voltariam… e ele estaria vendo um pouco melhor. Não muito, mas um pouco melhor.

Depois… depois seria pior.

O médico também já a avisara. O tratamento experimental do outro paciente não fora o aparente sucesso que a comunicação social tanto apregoara. Resultara durante uns meses… e tudo regressara ao normal, ao lento escurecer dos dias.

Mas isso… João, o seu João, não precisava de saber.

Por um instante, desejou que aquela palavra “ Fé” significasse algo mais do que um mero desejo.

- Gostava de acreditar… - murmurou entre dentes

- O que disseste, querida? Não ouvi.

Ela acariciou-lhe os cabelos em desalinho.

- Nada, João… não disse nada...

sábado, 22 de janeiro de 2011

A grande aventura

video

- Prontos?

A equipa técnica – nome pomposo para os dois ajudantes, já sem mãos para segurar o que mais fosse – acenou-lhe afirmativamente.

- O gravador está pronto? Testaram o som?

Matias, o mais alto, confirmou de novo.

- Já perguntaste isso dez vezes… e já te respondemos… dez vezes. Está tudo pronto.

Ele pegou no par de microfones e dirigiu-se ao pátio.

Um grupo de crianças, de idades bem variadas, jogava descontraidamente à bola, indiferente à presença dos adultos. Afinal de contas, cantar fazia parte da alma, com ou sem assistência.

António, o dos microfones, estava nervoso.

A ideia era simples, extremamente simples. Colocar um grupo de crianças a cantar “ a musica “, a tal musica que no seu entender resumia a verdadeira essência de viver, de estar vivo. E depois… ir repetindo o processo, em muitos países, em muitas línguas, com muitas raças, muitos credos, muitos instrumentos de som diferentes… simplesmente para provar – e mostrar – que a voz era só uma… e que a musica podia unir, fazer milagres.

Fizera daquela aposta uma missão.

No final, misturaria tudo e enviaria o resultado final ao maior numero de pessoas que conhecesse, a todas as televisões, a todas as rádios, às igrejas, aos governantes, às escolas, aos hospitais, às esquadras de policia, aos quartéis. Percorreria o planeta a pé, se fosse preciso.

Colocou-lhes os microfones nas mãos e fez sinal para o Matias ligar o som.

E esperou.

E finalmente… os acordes inconfundíveis encheram o ar.

A aventura ia começar.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A lágrima azul

( Fotografia de James Pan )


Havia algo de distante, naquele olhar.

Serena e imóvel, o mundo deslizava-lhe ao lado, como se de uma brisa se tratasse; um leve afagar dos longos cabelos – quando muito – fazia sentir que o tempo decorria. Nada mais.

As águas do lago, sulcadas pelos rastos dos cisnes, reflectiam-lhe o azul dos cabelos, um tom perdido entre o céu sem nuvens e a cor do mar.

O raiar da manhã encontrara-a já ali, sentada naquele mesmo banco de madeira velha, levemente inclinada sobre o lago. Os transeuntes habituais chegaram e partiram, as crianças atiraram pedacinhos de pão para as águas, um ciclista distraído pisou a relva verde. Nada de anormal, nada de extraordinário, simplesmente uma manhã como todas as outras, num dos jardins do centro da cidade.

Fora dos muros entrelaçados de musgo e trepadeiras secas, a cidade galopava freneticamente, num rodopio também ele normal. Os táxis apressados, pegando e largando gente atrasada, os autocarros amarelos dobrados pela carga excessiva, os estafetas gingando entre os peões… até um vendedor ambulante, montando à pressa o seu balcão de hamburgers e sanduíches.

Um dia de trabalho normal, sem dúvida.

Para Mina Yin aquele não era contudo um dia normal.

Quando - muitos anos atrás – virara costas à casa paterna e rumara à grande cidade, levava na bagagem um mundo de sonhos e – sobretudo – a vontade indomável de os realizar. Contrariando tudo e todos, batera com a porta, impaciente para tocar com os dedos um destino que acreditava estar à sua espera, na cidade das luzes.

E… como se não bastasse a memória da partida… existia ainda uma outra memória, a da primeira e única vez que o pai levantara a mão contra ela, punindo-a pela insolência das palavras, na troca de argumentos acesos da despedida.

Fora a gota de água – as palavras transbordaram-lhe do peito, disse o que nem sequer algum dia pensara ou sentira. Mas disse-o. E virou-lhes as costas, batendo com a porta da maneira mais arrogante que conseguiu.

Cinco anos… quase seis anos se haviam passado entretanto.

Não encontrara a cidade dos sonhos… nem o arco-iris da abundância. Fez de tudo um pouco para sobreviver, saltou de emprego em emprego – qual deles o mais precário – calou a consciência e vendeu tudo o que tinha para vender, mendigou, chorou, gritou de raiva e de remorso… mas não voltou a casa. Uma teimosia cega, só comparável ao orgulho infantil de nunca voltar atrás, obrigava-a a prosseguir, mesmo quando o destino se confundia com o abismo.

Mil vezes ignorou os telefonemas da mãe, em pranto. Mil vezes fechou os olhos, alheia a todos os pedidos do irmão, mesmo quando este lhe retransmitia em segredo as saudades mal disfarçadas do pai e a tristeza infinita da mãe. Nunca lhes atendeu o telefone, tão pouco lhes retribuiu as chamadas. O único elo de ligação entre ela e o seu antigo mundo resumia-se ao irmão, militar de carreira, sempre que ele - de passagem na cidade - a convidava para almoçar à pressa num restaurante, contando as novidades de casa.

É verdade que em muitas noites chorou, resistindo à tentação de pegar o primeiro comboio e voltar a casa.

Na noite anterior, o irmão telefonara-lhe.

Ela estranhou o tom sério da voz, habitualmente alegre e contagiante. Mas nada havia de alegre na noticia, nem modo mais leve de a transmitir. Os temporais – sim, os noticiários não falavam de outra coisa – as terras instáveis, os deslizamentos, as inundações.

Recusou-se a acreditar quando o irmão falou. Pediu-lhe para repetir. E ainda outra vez.

Mas por mais que ele o repetisse, a força das palavras não diminuía e ela sentiu de repente o peso do mundo a esmagar-lhe o corpo. Deixou de respirar.

O irmão repetia novamente – sim, era verdade, a aldeia fora bastante atingida pelos temporais, muitos desalojados, pessoas desaparecidas, arrastadas pela fúria das águas… e os pais… um deslizamento de terras na encosta, a casa de família soterrada, os dois corpos encontrados no dia seguinte, sob o entulho desfeito do que em tempos fora uma casa… um lar.

Mina Yin permaneceu imóvel, o olhar ainda perdido na superfície das águas.

Por muito tempo – demasiado tempo – adiara o regresso, adiara a reconciliação, adiara tudo. Um turbilhão de sentimentos – raiva, desespero, tristeza, impotência – assaltou-lhe o espírito, não conseguia pensar.

A sensação de “ser tarde, ser demasiado tarde para qualquer coisa” gelou-lhe o sangue. As palavras era inúteis, como inútil era o remorso ou a vontade infantil de pedir ao tempo que voltasse atrás.

O tempo não volta… não redesenha o passado, não rabisca o futuro. O tempo passa simplesmente, como simples tapete, espectador atento dos pequenos dramas que sobre ele se desenrolam.

Uma frase – ironicamente dita pelo próprio pai, muitos anos antes – queimava-lhe a garganta, ansiosa por brotar nos lábios.

“ Filha… não te despeças de ninguém com raiva ou ira. Nunca sabes ao certo se terás a oportunidade de a voltar a ver… ou de te reconciliares com ela “

Mina Yin.

Uma lágrima teimosa assomou-lhe no rosto, em silêncio.

Parecia azul, uma lágrima azul.

Mas talvez fosse simplesmente o reflexo dos seus cabelos azuis, ou um pouco de céu triste, caindo em flocos sobre o lago.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O camaleão dos olhos verdes



- Olá, estrangeiro…

Ele olhou em redor, desconfiado; mas na verdade, para além dele próprio… só a folhagem verde escura da copa das árvores, aqui e ali pejada de alguns rebentos jovens. Nada mais se movia.

- Pssttt… sim… tu mesmo…

Pronto. Então era mesmo para ele. Mas porquê “estrangeiro” ?

Rodou os olhos coloridos e observou-se numa rápida mirada. Não notou nada de especial.

Mas claro que ser camaleão já por si só… era algo de especial. Ainda comprovou se a camuflagem era a adequada… mas sim, as patas, a ponta da cauda, as mesmas tonalidades do tronco escuro da árvore. Tudo normal, portanto.

Então, porquê aquele “estrangeiro” ?

- É a primeira vez que aqui vens?

Olhou para ela com mais atenção.

Dissimulada entre duas folhas mais claras, a pele esverdeada reproduzia na perfeição as sombras do final da tarde, as manchas acinzentadas, até mesmo o castanho seco dos caules. Fitava-o imóvel, a curta distância.

- Sim… é a primeira vez…

- Ahhhh… eu sabia, eu sabia…

Avançou, recuou e avançou de novo, naquele jeito tão característico de caminhar dos camaleões, como se tacteasse cada centímetro de espaço à sua frente.

Ele ficou a vê-la aproximar-se.

Caminhara pelo bosque, sem destino ou direcção, empurrado pelo vento e pelos aromas dos frutos maduros. Nada o prendia a lugar algum.

Nada deixara para trás, nada esperava encontrar pela frente.

Há muito tempo atrás, aprendera que ser camaleão era ser em simultâneo um pouco de tudo, nada sendo de concreto. Não se reconhecia a ele próprio, nem à sua imagem, reflectida na água dos charcos.

A arte do disfarce era por vezes… frustrante; necessária à sobrevivência, é certo… mas cansativa.

Continuou à espera, pacientemente, vendo a anfitriã avançar cautelosamente para ele – afinal de contas, ele era o visitante, o “estrangeiro”, como ela lhe chamara.

Ainda haveria de descobri o porquê.

- Desculpa aparecer assim de repente… não percebi que esta árvore pudesse já estar ocupada… - lá foi dizendo, enquanto esperava que ela desse mais um passo vagaroso.

- Não faz mal – e ela moveu os olhos verdes, um em cada direcção, sempre alerta – é sempre bom receber visitas, de vez em quando…

Poucos passos e muitos segundos depois, encontraram-se finalmente.

Estudou-o pormenorizadamente, atenta aos mais pequenos pormenores. Ele, pouco habituado a tão meticuloso exame, sentiu-se como se observado à lupa.

- Porque me observas assim? Sou assim tão diferente?

Ela deixou-se rir e mudou instantaneamente a cor da cauda para um tom alaranjado vivo. Ele gostou do resultado.

-És diferente sim… muito diferente de todos os que já conheci… tens uns olhos brilhantes… e por isso te chamei estrangeiro, deduzi logo que não eras destas paragens…

- Não… na verdade não sou… - e foi a vez dele de mudar a cor da cauda para um arroxeado envergonhado, que não passou despercebido ao olhar dela.

- Queres fazer-me companhia, hoje à noite? Estou esperando a visita de uns amigos, todos simpáticos… tenho a certeza que vais adorar conhecê-los…

Ele ia responder que não sabia, que não tinha a certeza, talvez estivesse ocupado… mas ela antecipou-se às desculpas e com a cauda, enrolou-lhe o pescoço numa espécie de cumprimento mais afectuoso, que teve o condão de o fazer arroxear ainda mais a cauda.

- Muito bem… eu sabia que gostarias da ideia, fico feliz – e ela piscou-lhe o olho.

O recém-chegado deu-se por vencido, e convencido.

Desceram da árvore e caminharam lado a lado até ao pequeno lago. Um passeio vagaroso, contornando os cogumelos coloridos que polvilhavam todo o tapete verde.

Acercaram-se da margem do pequeno lago, esperando o passar dos insectos.

Junto das águas, tradicionalmente, os camaleões perdiam a camuflagem, voltando à sua cor original. Ela aclarou o tom da pele para um verde muito claro, um olho permanentemente alerta, em busca de alimento… o outro bem fixo no seu recente convidado. Ele, por sua vez, despiu aquele verde escuro das árvores, do mesmo tom dos olhos verdes e voltou à sua coloração natural, de um azul ofuscante que teimava em espreitar, mesmo quando ele se esforçava por passar despercebido.

Ela chegou-se um pouco mais para ele, as caudas ainda enroscadas.

- Adoro os teus olhos brilhantes, estrangeiro… e nunca tinha visto um camaleão azul, sabes?

Ele não sabia. Mas reconheceu um brilho especial naquele olhar com que ela o observava, e de repente sentiu-se como a mosca pousada no prato, à espera de ser servida.

Ia dizer algo, mas ela antecipou-se.

- Olha, estrangeiro… também gosto muito desse tom azul da tua pele….

Ele arroxeou de novo a ponta da cauda.

E deixou-se ir…

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Os dois lobos



Um uivo.

Baixo, prolongado, anunciando o nascer do sol.

Do outro lado do vale, a alcateia preparava-se para mais um dia de sobrevivência, caçando, alimentando as ninhadas, vigiando, demarcando os limites do território.

Lippi, a pequena loba de pelo pardo, observava-os em silêncio, protegida pela camuflagem dos arbustos rasteiros.

Naquele dia, não acompanharia o resto do grupo nas tarefas habituais…

Levantou o focinho e sorveu ávida o ar frio da manhã.

Não… ainda nada de novo, simplesmente os odores habituais e conhecidos, o aroma adocicado dos pinheiros e acácias, o cheiro da terra ainda húmida pelo nevoeiro da manhã.

Esperaria, continuaria a esperar…

Ao longe, conseguiu distinguir a sua cria, bem no centro do grupo, aos saltos e nas brincadeiras características da juventude. A sua terceira cria.

As duas primeiras haviam já abandonado o grupo, criando as suas próprias famílias. Não as voltara a ver, desde o dia em que – primeiro uma, logo depois a outra – as vira partir acompanhadas de dois jovens lobos cinzentos, em direcção à montanha.

O ciclo de vida repetia-se assim, sem necessariamente outra lógica ou razão senão a da continuação da espécie, ano após ano, o inverno das neves a dar lugar à primavera das flores e ao transbordar dos rios, ao verão e à chegada dos ursos, ao Outono e ao ritual do acasalamento, da partida das crias mais velhas para fundar novas alcateias, algures na imensidão da floresta.

O eterno ciclo da vida.

A sorte não bafejara a pequena Lippi, de pelo pardo, ao longo da sua já longa vida.

Se era verdade que os lobos eram sobejamente conhecidos pela constância, pela permanência, pela vida familiar sólida e fiel… também era verdade que Lippi nunca usufruira de todas essas benesses da espécie.

Muitos anos atrás, também ela abandonara o conforto da sua própria família e acompanhara um jovem lobo branco, atravessara a floresta e criara a sua própria família. Desses tempos, guardava a marca de muitas dentadas no pelo e a falta de um pedaço da orelha, arrancada pelo companheiro furioso.

Os lobos têm boa memória, diz-se.

Talvez por isso mesmo lhe fosse tão difícil lembrar como sofrera tanto, ao longo de tanto tempo, sem nunca soltar um queixume, sem fugir, continuando pacificamente a sujeitar-se a um vegetar silencioso, gerando crias, acompanhando o lobo branco por montes e vales.

Um dia… algo aconteceu.

Um lobo castanho saltou-lhe ao caminho, junto do ribeiro onde habitualmente bebia.

Nunca o vira por aquelas paragens, habitualmente desertas.

Rosnou de sobreaviso, mas o intruso não se afastou. Pelo contrário, abanou simplesmente a cauda, sentou-se bem no meio da vereda a barrar-lhe a passagem e soltou um ligeiro uivo, quase como um cumprimento desajeitado.

Ela olhou-o nos olhos e reviu-se a si própria, num tempo distante em que o olhar tinha um outro brilho, os passos eram mais seguros, a confiança maior.

Voltou a rosnar, para afastar o intruso.

Ele respondeu-lhe com novo uivo.

Se fosse humano, dir-se-ia estar a sorrir.

Rufus, o lobo castanho, percorria ele próprio caminhos desconhecidos. Abandonara a sua alcateia, vagueara pelos montes em busca de algo que nem sabia explicar. Sentira um chamamento e dirigira-se aquele local, sem saber o que iria encontrar; sabia simplesmente que precisava de se dirigir ali.

O tempo passou.

Uma estação, duas estações, um ano.

Lippi e Rufus tornaram-se próximos, estranhamente próximos.

Sem o fazer de propósito, davam os mesmos passos, adivinhavam os pequenos gestos um do outro, sentavam-se em simultâneo, tropeçavam nas mesmas pedras. Ele lambia-lhe o pelo pardo, amenizando-lhe as recordações das feridas, ela enroscava o focinho no pescoço dele, fazendo-o uivar de prazer.

Um dia, bem pela manhã, ele caçou um pequeno coelho e foi depositá-lo junto dela, acordando-a com um suave empurrão. Ela uivou, ronronando de prazer, nada habituada a gestos ternurentos.

Eram felizes.

Perscrutou novamente em redor.

Nada, ainda nada.

Só e ainda os habituais odores.

Esperaria…

Certo dia, acordou em pânico, sobressaltada pelos uivos de dor e pelo ruído de uma luta próxima. Correu.

Junto do ribeiro, o lobo branco – bem mais habituado a lutas de posse pelo acasalamento - massacrava o lobo castanho, arrancando-lhe pedaços de carne. Este ripostava como podia, contra-atacando… mas sem grandes resultados. O lobo branco, bastante mais velho e experiente, contornava-lhe as manobras, atacava de frente, pelos lados, por trás, movendo-se velozmente.

Num impulso, Lippi atirou-se para a frente, dando o corpo.

O lobo branco, enfurecido pela presença da companheira, saltou sobre ela, dilacerando-lhe num ápice o pescoço com as garras afiadas.

O sangue jorrou.

Lippi insistiu.

E novamente recebeu mais dor e sangue.

Até uma última patada a deixar prostrada no chão, sem sentidos.

Quando acordou, banhada em sangue, estava sozinha.

O lobo branco desaparecera, do lobo castanho restavam tufos de pelo e pedaços ensanguentados de carne, arrancada em furiosas dentadas.

Uivou.

Com toda a força que o corpo magoado lhe permitia.

Uivou de dor, de solidão, de tristeza infinita.

Uivou de raiva pela injustiça da vida, por se sentir fraca e desamparada, por querer… e não ter.

Os seus lamentos repercutiram-se nas encostas da montanha, prolongados em ecos que mais ninguém ouviu. Só ela.

As feridas sararam, a dor permaneceu.

Dia após dia, dirigia-se ao mesmo local, sentava-se e ali permanecia em silêncio… à espera. À espera de um sinal, de um reencontro, de um som, de um odor.

Nada, desesperantemente nada.

Sentiu-se morrer por dentro.

E nada podia fazer para o evitar.

Sem querer, uivou baixinho, como se falasse para si própria.

E foi então que… lhe pareceu ouvir algo.

Ergueu-se de um salto, rosnando ameaçadora em direcção à vegetação cerrada, donde lhe parecera ter saído o som.

Fosse o que fosse – mesmo um urso – sentia-se demasiado fora de si. Apetecia-lhe rasgar com os dentes o mundo inteiro, carpir todas as mágoas, e pobre do animal que agora lhe aparecesse pela frente, fosse ele qual fosse.

Os arbustos agitaram-se ao de leve, o ruído característico das folhas secas pisadas.

Uma figura frágil, arrastando uma das patas, assomou na vereda.

Rufus.

Um uivo.

Lippi acercou-se pé ante pé, sem acreditar completamente no que via.

Ele escorregou e deixou-se cair bem aos pés dela.

As forças não chegavam para mais.

E novamente, Lippi uivou.

Um uivo diferente, como nunca soltara em toda a sua vida.

Um grito rasgado de dentro, de convicção, de querer, de vontade indomável.

Fora fraca um dia, não o voltaria a ser novamente.

Sentou-se sobre as patas traseiras, lambendo-lhe o pelo sujo e pejado de espinhos.

Os olhos brilhavam-lhe, um brilho quase esquecido.

Esfregou o focinho no pescoço dele, à espera de um rosnar de prazer. Ele, demasiado ferido, esboçou um leve uivar, que mais se assemelhava a um latido de dor.

E trocaram um olhar.

Um longo e cheio de sentidos olhar.

Não era preciso dizer nada, fazer nada.

Ambos sabiam.

Ambos queriam.