quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um passeio no parque


Chuva. Miúda, persistente, intercalada de nuvens cinzentas.

Nem seria o frio, ou o vento... simplesmente aquela chuva insonsa, que de tanto cair, abafava o brilho do sol, fechava as pétalas das flores e retirava a vontade a tudo.

Chuva.

E, naquele dia... novamente.... mais chuva.

Espreitou de novo pela janela.

Não... nem valia a pena tentar esperar por uma aberta, um raio de sol. Decidida, deixou-se levar, atravessou o pequeno jardim que separava a pequena casa da rua estreita... e lá foram as duas, em direcção ao parque.

Muito cedo para os habituais corredores, os atletas de domingo, as crianças de triciclo.

O parque, bem encostado à lagoa de águas cinzentas, encontrava-se imaculadamente vazio.

Em silêncio, percorreram as veredas, contornaram a fonte de pedra, os canteiros salpicados de flores.

De quando em quando, salpicos teimosos insistiam em cair, gotejando dos ramos das árvores, sempre que a brisa soprava um pouco mais forte.

- Não... por aí não... vamos contornar o lago...

Ela não a ouviu... ou fez de conta que não ouviu.

- Teimosa... sempre teimosa...

Resignada, seguiu-lhe a vontade.

Ambas cor-de-rosa, alegres, sobressaindo do verde molhado do parque, contrastando no cinzento das pedrinhas roladas do carreiro. Conheciam tão bem aquele percurso que certamente o poderiam repetir, sem enganos, de olhos fechados. O parque, embora vazio de visitantes, permanecia um mundo cheio de movimentos e sons camuflados, de cantos inesperados dos pássaros, de correrias timidas dos esquilos, de gritos roucos dos cisnes.

As gotas de chuva, esparsas até então, engrossaram subitamente. Uma nuvem mais escura, sobressaindo do cinzento amorfo do céu, persistia em persegui-las.

- Corre... vamos para casa...

Ela fez mais força, os pedais rangendo ao esforço.

Não resultou.

Completamente encharcada, abriu a porta de casa e encostou a bicicleta cor-de-rosa à parede da garagem.

- Vou tomar um bom banho e já te venho limpar - cantou alegremente, como se a bicicleta cor-de-rosa a pudesse ouvir - não te quero ver enferrujada...

A bicicleta rosa, cestinha de vime pendurado no guiador, permaneceu muda, vendo a dona desaparecer no corrdor.

As bicicletas não falavam, claro. Mesmo que fossem cor-de-rosa.

Muito lentamente, deixou-se escorregar ao longo da parede, até junto da janela envidraçada. Se conseguisse que a sua dona a ouvisse... certamente que a primeira coisa que lhe gostaria de dizer seria que aquele local, bem junto da janela da garagem, era o seu local predilecto. Ali se deleitava com o movimento da rua, o passar incessante dos automóveis ruidosos, do buzinar de todas as manhãs.

E claro... não só por isso.

Existia também aquele ínfimo pormenor... daquela bicicleta cinzenta e prata, de cromados reluzentes, que todas as manhãs lhe lançava uma buzinadela cristalina, por vezes um piscar de farolim. Se o entregador de jornais soubesse...

Mas não.

Nem o entregador de jornais, montando a sua vulgar bicicleta cinzenta e prata sabia... nem a sua dona, como qualquer adolescente passeando no parque com a sua bicicleta cor-de-rosa sabia.

Quem poderia adivinhar?

Uma janela, uma bicicleta rosa e a suave sedução de um piscar de farolim, todas as manhãs?

Ahhh... se ela ao menos pudesse falar...

5 comentários:

  1. Que lindo,Rolando!!! Boa leitura essa,adorei!abra~ção,chica

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  2. gostei muito daqui..
    estou te seguindo..e toda vez que tu apareceres, vou dar uma espiadinha..
    como a bicicleta cor de rosa..

    bjs.Sol

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  3. Eu gostei, até porque eu achos que às vezes os objectos falam. ;)

    Beijinhos

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  4. Olá, Rolando

    Muito interessante a ideia de uma bicicleta como protagonista. E, ainda por cima, namoradeira,já com o olho na bicicleta cinzenta e prata a tal da buzinadela cristalina e também do piscar do farolim.Um conto fresco, agradável e, diria, original.Precisamos muito de momentos positivos como este.

    Abraço

    Olinda

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