Invisível… como uma lágrima à chuva, rodeada de gotas de água.
Assim se sentia.
Deve existir uma razão, um propósito para tudo isto… qual o sentido de continuar vivo… se não entender o porquê? – pensou.
Mais um dia findava, o sol desaparecendo sob nuvens distantes, o mar estranhamente silencioso.
- Respostas, preciso de respostas… onde errei? Onde errei?
Silêncio. Simplesmente o silêncio; sem respostas… nem vozes, nem ruído de passos, tão pouco mensagens em garrafas pela maré baixa.
Olhou em redor; coqueiros… um paraíso verde a perder de vista, areia imaculada, riachos cristalinos brotando das rochas e desaguando num mar turquesa. A felicidade – se cenário idílico de um filme – seria pintada com aquelas cores, certamente.
Mas… quanto tempo se passara entretanto? Um ano? Dois anos? Quando decidira abandonar tudo… emprego, família, amigos… e isolar-se do mundo numa ilha deserta… acreditara cegamente ter encontrado a solução – tudo quanto lera, quanto ouvira, quanto pensara… parecia apontar-lhe essa direcção… “ ouve a tua voz interior, foge das distracções que te cercam, inventa o teu próprio mundo”…
Não fora precisamente isso que ele tentara fazer?
Sobrevivera como um autêntico náufrago naquela ilha paraíso, meditara, rezara a um deus desconhecido, implorara por respostas…
Mas a solidão não acalmou, as noites não se esvaziaram de pesadelos, tão pouco o olhar se iluminou de descobertas… ou respostas.
Porquê? Porquê? Porquê?
Três anos antes… aquele acidente; brutal, inesperado, injusto, tremendamente injusto. Ceifara-lhe a felicidade, o presente, o futuro. Ela partira. Só isso. Para uma viagem sem regresso. Ele permanecera vivo… sem motivo ou razão. Porquê?
Sentou-se na areia, esperando sem pressa que o mar o visitasse.
Chegara ao seu limite, sabia-o bem.
Porque tudo tem um limite, um ponto a partir do qual… há que saber desistir… deixar ir… e aceitar.
Naquele momento, sentiu ter tocado essa ténue fronteira entre o querer estar vivo e o sentir o supérfluo de estar vivo.
A primeira das ondas da maré que subia tocou-lhe os dedos dos pés.
Sim… um tempo como outro qualquer.
Porque não?
Ergueu-se e dirigiu-se ao mar, o passo sem pressa.
Não sentiu a água; nos pés, nos joelhos, subindo devagar pelo peito, salpicando-lhe o rosto.
Não sentiu quando submergiu, expirando o pouco ar que ainda lhe restava nos pulmões.
Não sentiu nada.
Permaneceu sereno, balouçando com o vaivém das ondas. Abaixo da superfície, reinava o silêncio, um silêncio azul.
Aos poucos, um ardor encheu-lhe o peito, os pulmões vazios suplicando por um pouco de ar, só um pouco de ar. A vista turvou-se, imagens fantasmagóricas rodearam-no de cores garridas. Não viu anjos nem trombetas, túneis de luz, harpas celestiais, mãos estendidas.
Simplesmente… aquele vulto branco… ao longe, como em todos os sonhos, um corpo em sereno descanso, os braços pendentes, os cabelos esvoaçantes.
Chorou.
Inutilmente… mas chorou, o sal das lágrimas engrossando um mar salgado, simplesmente mais uma gota de tristeza num oceano silencioso.
O corpo não lhe obedeceu mais e com um impulso dos pés, irrompeu à superfície, o peito sequioso a devorar ávido o precioso alimento.
Ar… vida…
As lágrimas continuaram a cair-lhe no rosto, disfarçadas entre todas as gotas de água.
E foi então que o desespero lhe brotou da alma, na forma de um grito, que mais ninguém ouviu.
Mas gritou, e gritou, e gritou, até a garganta não conseguir mais emitir um único som.
Gritou, simplesmente.
De medo, de desespero, de querer morrer e de querer viver, de ter que prosseguir viagem sem mapa, sem rumo.
Mas ninguém o ouviu.
O mar, como sempre, acolheu no seu peito mais algumas lágrimas e a maré continuou a encher, mais salgada, sobre a praia deserta.










